"A
Organização Mundial de Saúde já admite o caráter
multifatorial da doença, a importância dos aspectos emocionais e
ambientais na gênese e no prognóstico de uma infinidade de
patologias, além dos condicionantes genéticos e tendências
familiares". Com este parecer a médica homeopata,
psicoterapeuta e diretora do IBS Sistêmicas (Instituto de
Soluções Sistêmicas), de Goiânia, Dagmar Ramos, elucida a
grande abertura da ciência, nas últimas três décadas, para o
paradigma sistêmico, atualmente muito difundido em várias áreas
do conhecimento e, por alguns grupos, com as constelações
sistêmicas, desenvolvidas pelo padre e terapeuta alemão Bert
Hellinger.
A
médica se encontra em Fortaleza para ministrar workshop sobre
Constelações Empresariais e se prepara para em 2010 iniciar uma
formação de dois anos, também em nossa Capital, em Constelações
Familiares. Em entrevista ao Viva, ela esclarece alguns pontos
desta abordagem, que não é tão nova assim, embora esteja
atualmente em franco desenvolvimento.
Como
a visão sistêmica tem contribuído para ampliar a percepção do
ser humano entre os profissionais de saúde?
O
mundo mudou. Falamos hoje de uma nova ciência, de um paradigma
científico aberto, com a Física Quântica e com as fenomenais
descobertas no campo da Biologia e da Química: é inexorável que
sejamos chamados a ampliar nossa visão sobre a doença e o ser
humano. O pensamento sistêmico é uma forma de abordagem da
realidade em sintonia com este novo paradigma, contrapondo-se ao
reducionismo mecanicista da visão anterior e abrindo-nos para a
compreensão da natureza sistêmica da vida e suas vastas redes de
interligações. A visão sistêmica nos leva à
interdisciplinaridade e nos permite ampliar também nosso campo de
atuação profissional. A compreensão do ser humano como partes
conectadas de engrenagem mecânica, há muito cedeu lugar para a
visão do todo presente em cada célula, cada parte, em campos de
ressonância complexos e ordenados, em interação total com a
natureza, como um todo.
Como
a doença agora é vista?
Dentro
deste contexto de interações, a doença passou a ser observada
como desordem. Ou seja, tendo suas causas investigadas em ações
e reações a toda ordem de fatos, de diversas origens, com
impactos variados na homeostase humana. Em nossa atuação com as
constelações, hoje podemos compreender melhor o caráter
sistêmico e transgeracional do adoecer humano, tanto nas
desordens relacionais, quanto nos sintomas e doenças físicas ou
mentais.
Quais
os fatores que estão levando mais as pessoas a adoecerem, com
males como obesidade, depressão e câncer?
Aqui
temos exemplos dolorosos e pertinentes de doenças comuns da nossa
cultura atual: a obesidade, a depressão e o câncer. É inegável
o caráter sistêmico, em grande medida, destas condições. E a
influência nas suas gêneses das dinâmicas culturais, as quais
nos levaram a uma fragmentação interna e ao afastamento de nossa
natureza real, biológica e anímica. Nosso corpo físico se
ressente do sedentarismo e dos erros alimentares impostos pelos
atuais princípios culturais desordenados. Assim como nosso corpo
emocional adoece diante da ilusão de separatividade com o todo e
das interferências na rede de conversações com o outro. Bert
Hellinger, no seu insight fenomenal sobre "as ordens do amor"
no sistema familiar, nos revela os profundos vínculos, atuais e
transgeracionais, a que estamos submetidos - em geral - de forma
inconsciente e que, muitas vezes, determinam nossa condição de
adoecimento. Particularmente no câncer, temos tido a oportunidade
de confirmar, através do trabalho das constelações, esta
influência sistêmica no seu desenvolvimento. Em alguns casos, a
dinâmica revelada era o impulso de seguir na morte algum
familiar. Muitas vezes, tratava-se de uma criança (um filho)
disposta a "sacrificar-se" para que o pai ou a mãe, em
movimentos de abandono da vida, pudessem viver. É o que
aprendemos a chamar de "amor inocente da criança" pois,
na realidade, o que está levando o pai ou mãe amados a deixar a
vida, é mais forte que sua intenção de impedir.
Identificar
essas conexões ocultas ajuda a mudar padrões?
Sim.
Por exemplo, encontramos algumas vezes, em casos de câncer de
mama, uma dinâmica de identificação com dores emocionais
profundas e não resolvidas de antepassados, geralmente mulheres,
da família. Os casos de obesidade, assim como de anorexia,
costumam estar relacionados a movimentos interrompidos em direção
ao pai ou à mãe. Na depressão, em nossa experiência assim como
na literatura médica a respeito, encontramos dinâmicas de
identificação com uma morte prematura, muitas vezes de irmãos,
também abortos e natimortos na família de origem, como se fosse
um movimento de "não permissão interna para ficar na vida".
Frequentemente, também observa-se a identificação de indivíduos
deprimidos com sentimentos de profunda mágoa e raiva, não
expressos, tanto seus como de um familiar antepassado.
Como
se dá o aconselhamento e consulta de um médico ou psicólogo que
tem a formação na área sistêmica?
O
aconselhamento psicológico e/ou uma consulta médica, a partir de
uma visão sistêmica, ampliam em muito as possibilidades de bons
resultados na ajuda a que se propõem. Nosso olhar é direcionado
para o todo, para a família, a comunidade, etc. Evitamos o
julgamento precipitado. Todos os citados e envolvidos são
acolhidos por nós, nos colocamos em uma posição de escuta
perceptiva e temos, assim, melhores condições de fazer um
diagnóstico preciso e adotar um procedimento eficaz. Hoje já
sabemos que a abordagem sistêmica também contribui, inclusive,
na área empresarial.
Quais
são as áreas hoje em que as constelações são realizadas?
As
constelações sistêmicas estão hoje presentes, com força, nos
grupos e organizações. Assim como não podemos mais estudar o
ser humano de forma fragmentada ou mecanicista, nosso olhar para a
organização precisa ver o todo e suas inter-relações, suas
dinâmicas historicamente produzidas, sua rede de conversações
internas e externas, identificar as forças que estão presentes e
atuantes, suas ordens e desordens sistêmicas. As constelações
sistêmicas são utilizadas em vários momentos da consultoria a
pessoas, organizações ou empresas, sejam elas profissionais,
curriculares ou de carreira, no desenvolvimento de pessoas; de
diagnóstico, explicitando dinâmicas ocultas;de prognóstico,
antevendo forças atuantes num futuro próximo. Na tomada de
decisões (quando o cliente está diante de opções a serem
definidas); constelação de cenário, visando explicitar
possíveis cenários e estratégias.
Uma
outra área em que as constelações já demonstram grande
potencial é na educação, seja enquanto abordagem pedagógica ou
na orientação ( aqui a escola é vista como um organismo vivo).
O IBS Sistêmicas iniciou um trabalho de formação de professores
e orientação a pais e dirigentes de escolas, que chamamos de
Pedagogia da Interação Sistêmica, a exemplo do que já existe
principalmente na Alemanha, na Espanha, na Argentina e no México.
Através desta metodologia, podemos compreender a escola enquanto
um lugar de encontro de sistemas que interagem, o familiar dos
alunos e dos professores, a comunidade, o sistema educacional, as
políticas da educação e os governos, a escola-empresa e suas
dinâmicas internas. Assim nossa ação torna-se abrangente e com
amplas possibilidades no sentido de trazer ordem e paz ao
sistema-escola, em questão.
Experiências
de grande impacto vêm sendo desenvolvidas também com as chamadas
constelações políticas ou sociais. O exemplo maior neste
sentido é de um projeto junto ao Governo da África do Sul,
coordenado por uma equipe de consultores alemães.
Este
trabalho tem em vista a promoção da harmonia entre pessoas e
grupos. Isso é possível sem a presença de todos os integrantes
de um sistema?
Hoje
sabemos que a constelação age no campo mórfico do sistema em
questão, seja familiar ou organizacional. Utilizamos aqui o
conceito de "campo mórfico" desenvolvido por cientistas
da Biologia, como Rupert Sheldrake e outros. Um membro do sistema
busca esta ajuda, coloca sua questão para ser "constelada"
e o resultado pode tocar o campo todo, provocando então ondas,
que afetarão o sistema trabalhado e assim as pessoas que
pertencem e interagem com este sistema. É um fenômeno que ainda
está sendo estudado, mas a teoria que mais similitude apresenta,
até o momento, no sentido de uma explicação deste fato
observado na prática, é a teoria dos campos mórficos, também
chamados de campos de presença ou oniscientes.
De
que forma o entendimento das ordens do amor tem contribuído para
harmonizar os sistemas humanos?
No
momento em que tomamos consciência destas ordens e suas possíveis
desordens, em nosso sistema familiar ou organizacional, sentimos o
impulso por uma mudança de atitude, por abrirmos o coração
quando o percebemos bloqueado por algo que nem tínhamos
conhecimento. É natural desejarmos estar em ordem e no fluxo do
desenvolvimento harmônico e feliz em nossas vidas. Encontramos,
neste sentido, grande ressonância nos estudos de outro cientista
da Biologia, respeitado em todo o mundo - o professor chileno
Humberto Maturana - quando afirma que "o que funda o humano é
o amor. Amor enquanto aceitação do outro como legítimo outro na
convivência", afirma.
FIQUE
POR DENTRO
Doenças
são estudadas em suas relações sistêmicas
O
Sisc-Study (Sintomas, Doenças e Constelações Sistêmicas) foi
iniciado por grupos de cientistas alemães e de outros quatro
países, contando com a participação de consteladores sistêmicos
do Brasil.
Segundo
Dra. Dagmar Ramos, que participa do estudo, dirigido pelo Dr.
Gunthard Weber, da Universidade de Heidelberg, da Alemanha, o
objetivo é estudar o fenômeno das constelações no atendimento
a pacientes com sintomas ou doenças.
"Partimos
de algumas condições que nossa prática clínica já apontava
como sensíveis a este método, principalmente a fibromialgia,
doença de Crohn, insônias persistentes e infertilidade do casal,
sem causa orgânica".
Dra.
Dagmar Ramos explica que trata-se de uma pesquisa qualitativa,
voltada também para orientar os terapeutas consteladores sobre
esta particularidade do trabalho sistêmico. "No momento,
estamos nos dedicando a escrever as observações, a fim de
publicar um livro e um site específico sobre o assunto", diz
ROSE MARY
BEZERRA REDATORA
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